OS DESAFIOS DO CRISTÃO COMO CIDADÃO POLÍTICO

 




 

OS DESAFIOS DO CRISTÃO COMO CIDADÃO POLÍTICO

Vivemos um tempo de grandes desafios para nós, cristãos. O crescimento numérico dos evangélicos brasileiros trouxe também uma nova responsabilidade social. Segundo os dados oficiais do Censo 2022 do IBGE, divulgados em 2025, os cristãos protestantes (evangélicos) representam 26,9% da população brasileira, o equivalente a mais de 47 milhões de pessoas. Em 2010, esse grupo representava 21,6% da população e, em 1991, aproximadamente 9%.

Esse crescimento expressivo fez com que a presença evangélica alcançasse novos níveis de visibilidade social e política. Entretanto, chegamos a esse novo cenário, muitas vezes, despreparados. As estatísticas passaram a ser utilizadas como instrumento de disputa por prestígio social e poder político, enquanto a religião evangélica se tornou, cada vez mais, uma religião de massas.

Essa nova realidade tem sido desgastante para a nossa imagem pública e nos coloca diante de uma pergunta fundamental:

O que precisa realmente ser mudado para que nossa cidade, nosso estado e nosso país se aproximem mais do plano de Deus para a humanidade?

Por mais confusa que pareça a situação, precisamos exercer o nosso papel de sal da terra. E faremos isso quando nos assumirmos como cristãos criticamente responsáveis.

1. SOMOS CHAMADOS AO NÃO CONFORMISMO

Paulo escreve:

“Não imitem o comportamento e os costumes deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma mudança em seu modo de pensar, a fim de que experimentem a boa, agradável e perfeita vontade de Deus para vocês” (Romanos 12.2 – NVT)

O cristão não pode simplesmente assumir o jeito de ser do mundo. Ele deve permitir que Deus transforme sua maneira de pensar. Trata-se de um trabalho de remodelação da mente a partir de dentro.

Esse princípio alcança todas as áreas da existência humana, inclusive a política.

Paulo apresenta suas exortações acerca das autoridades políticas depois de estabelecer, em Romanos 12, os princípios que devem orientar a vida do cristão. Portanto, quando chegamos a Romanos 13.1-7, a questão da relação do cristão com o Estado não aparece isoladamente. Ela está inserida dentro de uma visão mais ampla de vida cristã.

Somos chamados ao não conformismo com este século.

Isso significa que não podemos reproduzir automaticamente os valores, métodos, discursos e práticas encontrados na sociedade. Nossa participação política também precisa passar pela transformação da mente promovida pelo evangelho.

E então surge a pergunta:

O que fazer?

Alguém já disse que:

“A solução para a má política é a boa política.”

2. UMA COMUNIDADE COMPROMETIDA COM O BEM COMUM

A partir dos versículos 3-8 do capítulo 12, Paulo apresenta o ideal cristão de vida comunitária.

Essa comunidade é baseada na contribuição responsável de todos, cada um exercendo seus dons e colocando-os a serviço do bem comum.

Não se trata de uma comunidade construída em torno da busca por poder, prestígio ou superioridade. Cada pessoa tem sua responsabilidade e sua contribuição.

Paulo sabia que a existência de uma comunidade radicalmente diferente provocaria oposição e perseguição. Por isso, ele orienta:

“Abençoem aqueles que os perseguem; abençoem, não amaldiçoem.” (Rm 12.14)

Em seguida, ele chama os cristãos a uma postura diferente diante do conflito:

Nunca paguem o mal com o mal. Pensem sempre em fazer o que é melhor aos olhos de todos. No que depender de vocês, vivam em paz com todos. Amados, nunca se vinguem; deixem que a ira de Deus se encarregue disso [...] Não deixem que o mal os vença, mas vençam o mal praticando o bem (Romanos 12.17-21 – NVT).

Essa ética prepara o terreno para aquilo que Paulo tratará no capítulo 13.

O mesmo cristão que é chamado a viver em paz com as pessoas é chamado também a compreender sua relação com o Estado.

 

 

3. SUBMISSÃO AO ESTADO E SOBERANIA DE DEUS

Em Romanos 13.1-7, Paulo exorta o cristão à submissão às autoridades.

Mas esse mesmo cristão que se submete às autoridades políticas também crê na soberania de Deus sobre todas as áreas da vida.

É justamente esse princípio que impede o conformismo.

Reconhecer a autoridade do Estado não significa colocar o Estado no lugar de Deus. A autoridade política continua debaixo da soberania divina e deve ser compreendida dentro dos limites estabelecidos pela justiça.

A atitude correta diante do Estado pode ser compreendida como parte do próprio dever do amor cristão.

Por isso, o exercício do voto não deve ser tratado como uma oportunidade de simplesmente defender nossos interesses. O voto é uma responsabilidade diante da sociedade e uma forma de participar da constituição das autoridades.

4. DEVEMOS OLHAR O MUNDO À MANEIRA DOS PROFETAS

Precisamos aprender a olhar a realidade como os profetas.

Os profetas aparecem justamente em momentos nos quais a Lei de Moisés estava sendo negligenciada. Eles não enxergavam apenas aquilo que estava diante dos olhos. O profeta procurava enxergar a realidade com os olhos de Deus.

A justiça é uma manifestação da participação de Deus na vida humana.

Quando as pessoas abusam dos pobres, dos fracos e dos vulneráveis, muitas vezes não percebem que estão afrontando o próprio Deus:

“O que oprime o pobre insulta aquele que o criou” (Provérbios 14.31).

Por isso, devemos votar à maneira dos profetas: inconformados com a opressão dos outros.

Precisamos ser pessoas que “choram e oram em particular, e desafiam terra e inferno em público”.

Cristãos que, dentro das possibilidades humanas, procuram enxergar a realidade brasileira a partir da perspectiva de Deus.

Essa postura exclui dois tipos de voto.

O primeiro é o voto interesseiro e egoísta: aquele que pergunta somente o que é melhor para mim, para minha profissão, para minha classe ou para meu grupo.

O segundo é o chamado “voto irmão”: aquele que considera suficiente votar em alguém apenas porque pertence à comunidade evangélica.

O cristão não deve votar simplesmente porque o candidato é “dos nossos”.

Precisamos exercer com consciência o direito do voto.

5. ELEVAR O NÍVEL DO DEBATE ELEITORAL

O nosso papel como evangélicos deve ser, entre outras coisas, elevar o nível do debate eleitoral.

Precisamos rejeitar as motivações baseadas em:

·         interesses pessoais;

·         preconceitos;

·         manipulação;

·         coação;

·         medo;

·         paixão partidária;

·         interesses exclusivamente religiosos.

Precisamos apelar à consciência de cada cidadão.

Paulo afirma:

“Por isso, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi dada, não desanimamos. Pelo contrário, rejeitamos as coisas ocultas que trazem vergonha, não agindo com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus. E assim, pela manifestação da verdade, nos recomendamos à consciência de todos na presença de Deus” (2 Coríntios 4.1-2)

O cristão precisa aprender a dialogar com a consciência das pessoas, e não simplesmente tentar controlá-las.

6. NÃO SOMOS APENAS RESPONSÁVEIS PELAS PESSOAS, MAS TAMBÉM PELAS ESTRUTURAS.

Precisamos nos enxergar como responsáveis pelas estruturas do mundo social.

Isso implica reconhecer que as estruturas sociais resultam de decisões humanas e, portanto, podem ser modificadas.

Não existem apenas pessoas corruptas. Existem também estruturas que podem favorecer reproduzir ou proteger práticas corruptas.

As estruturas também precisam ser reformadas.

Como cristãos, temos responsabilidade diante disso.

Precisamos “criar todo um sistema político de apoio a mudanças”.

Não podemos esperar que tudo aconteça de maneira improvisada. Precisamos nos preparar agora para um trabalho de conservação da fé e de transformação da sociedade.

Isso exige uma membresia mais estável, madura e com uma visão mais ampla da vida cristã.

7. HUMILDADE NO DEBATE POLÍTICO

Também precisamos de humildade.

Nossas posições políticas não são perfeitas simplesmente porque somos cristãos.

O nosso olhar continua sendo limitado.

Podemos interpretar a realidade de maneira equivocada. Podemos ter boas intenções e, ainda assim, chegar a conclusões erradas.

Por isso, um bom diálogo pode lançar mais luz sobre determinada situação.

Precisamos aprender a conversar sem transformar aquele que pensa diferente em inimigo.

A verdade não precisa da agressividade para ser defendida.

8. NOSSO PAPEL É TAMBÉM ÉTICO

Muitas vezes jogamos para um nível místico coisas que precisam ser enfrentadas eticamente.

Queremos expulsar o “demônio da corrupção”, quando também precisamos construir mecanismos concretos de prevenção, fiscalização e responsabilização.

Existe um fascínio pelo projeto de converter o poder.

Isso acontece porque o poder muitas vezes é entendido como uma pessoa, e não como um sistema.

Precisamos compreender que, em vez de simplesmente querer mudar o homem que está no poder, precisamos desenvolver um conceito mais bíblico de pecadores controlando uns aos outros por meio de sistemas de fiscalização mútua.

O problema não será resolvido apenas encontrando “o homem certo”.

Precisamos de instituições capazes de limitar o poder, fiscalizar o poder e responsabilizar aqueles que abusam do poder.

Por isso:

“Devemos nos assumir como atores políticos, deixando de lado os disfarces de profecias ou demônios territoriais.”

A participação política precisa ser acompanhada de responsabilidade ética.

9. DEFENDER A FAMÍLIA TAMBÉM É UMA RESPONSABILIDADE POLÍTICA

Precisamos observar e falar em defesa da família.

Mas essa defesa também passa pelas políticas públicas e econômicas que realmente permitam uma vida familiar mais estável.

Não basta falar sobre família dentro da igreja. Precisamos pensar sobre as condições sociais e econômicas que afetam diretamente a vida das famílias.

Precisamos aprender a defender politicamente os padrões bíblicos não apenas com base em sua autoridade religiosa — que não é reconhecida por todos —, mas também demonstrando suas consequências sociais, humanas e econômicas.

10. RELIGIÃO E POLÍTICA NO MERCADO DAS IDEIAS

Existem maneiras legítimas de relacionar religião e política eleitoral.

Uma delas é participar do mercado das ideias.

Apresentamos propostas, argumentos e valores na esperança de que eles possam influenciar a sociedade.

Não precisamos transformar o Estado em extensão da igreja.

Precisamos apresentar boas ideias e participar do debate público de maneira responsável.

Isso significa trabalhar na transformação da cultura política.

Precisamos perguntar:

Quem são aqueles que elaboram propostas concretas?

Quem possui capacidade, preparo e caráter para transformar boas ideias em políticas públicas?

Precisamos escolher nomes que sejam éticos e viáveis, pessoas que compreendam a responsabilidade que acompanha o exercício do poder.

11. UMA NOVA RESPONSABILIDADE PARA A IGREJA

O crescimento evangélico brasileiro nos colocou diante de uma nova responsabilidade.

Não podemos comemorar apenas o número.

Precisamos perguntar o que estamos fazendo com a influência que conquistamos.

Mais importante do que aumentar nossa presença nas estruturas de poder é preparar pessoas capazes de exercer esse poder com responsabilidade.

O desafio não é simplesmente colocar mais evangélicos nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas ou no Congresso Nacional.

O desafio é formar cristãos maduros, preparados, éticos e criticamente responsáveis.

Precisamos de homens e mulheres que não tenham medo de fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com seu Deus.

Como disse Martin Luther King:

“Vamos marchar sobre as urnas, até que enviemos às câmaras municipais, às assembleias legislativas e ao congresso pessoas que não tenham medo de fazer justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com seu Deus.”

Esse é o nosso desafio.

Não fugir da política.

Não idolatrar a política.

Não transformar o evangelho em instrumento de poder.

Mas entrar na vida pública como cristãos que pensam, discernem, dialogam, participam, fiscalizam e servem.

Porque o cristão é chamado a ser sal da terra.

E ser sal significa estar presente.

Estar presente sem perder a identidade.

Participar sem se conformar.

Influenciar sem dominar.

Defender a verdade sem abandonar a misericórdia.

E exercer a cidadania lembrando que, acima de qualquer governo, partido ou autoridade humana, Deus continua sendo soberano sobre todas as áreas da vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências:

 

STRONGTHED, Roger. COMENTÁRIO BÍBLICO PENTECOSTAL. CPAD.

BRUCE, F.F Comentário Bíblico Bruce Antigo e Novo Testamento. 2°ed. São Paulo: Editora Vida, 2012.

CARSON, D.A Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2009.

HARRISON, E.F Comentário Bíblico Moody. 2°ed – São Paulo: Batista Regular do Brasil, 2017.

WIERSB, VOL 5. Comentário Bíblico

Bíblias ACF,NVI,NVT

HARRISON F. Everett. Comentário Bíblico MOODY:Volume 2 – 2ed – São Paulo: Batista Regular do Brasil, 2017.

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